Uma nova Paris

26/06/2015 

Por Daniela Fernandes

 

Prédios totalmente construídos com materiais reciclados, o que inclui o cimento, ou que integram o conceito de "agricultura urbana", com estufas, que permitirão aos moradores terem sua horta. Esses são apenas alguns exemplos dos inúmeros projetos apresentados por arquitetos do mundo todo, inclusive do Brasil, na concorrência lançada pela prefeitura da capital francesa para "reinventar Paris", como é chamada a nova operação de urbanismo, na qual a palavra de ordem é "inovação", o principal critério na escolha dos vencedores.

 

"Os projetos serão selecionados em virtude da inovação e de sua utilidade e não em relação ao preço oferecido. É a primeira vez que é lançada uma concorrência desse tipo, em que as novas ideias são mais importantes do que quem  vai pagar mais", afirma Jean-Louis Missika, adjunto da Prefeitura de Paris - equivalente a secretário municipal -, responsável pelo urbanismo, arquitetura e desenvolvimento econômico da capital francesa. Na prática, foi dada carta branca aos interessados para "inventar o urbanismo do século XXI" na cidade. "Os modos de vida mudam em grande velocidade e os prédios devem se adaptar a isso", diz Missika.

 

O Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), organização não governamental sediada em São Paulo, é um dos concorrentes do projeto. Com parceiros da iniciativa privada, o Urbem é o único competidor brasileiro no evento, entre grupos de 15 países, como Alemanha, Japão e Holanda (leia mais na pág. 20). A concorrência foi lançada em 23 áreas em Paris, localizadas em nove distritos, os "arrondissements". A oferta de áreas, que totalizam cerca de 150 mil m2 de construção, é bastante variada: subestação de energia, estação ferroviária abandonada, prédios históricos que eram antigas residências de nobres (os chamados "hôtels particuliers") e também terrenos vazios, que ainda existem em zonas mais periféricas da cidade. O consórcio brasileiro coordenado pelo Urbem apresentou propostas para 12 áreas.

 

"Não há uma cidade no mundo que tenha ousado o que estamos fazendo agora. Estamos vivendo um momento histórico", declarou a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, ao apresentar o projeto Réinventer Paris a cerca de 200 arquitetos e empreendedores imobiliários em novembro. Na primeira fase, em janeiro, foram apresentadas 815 candidaturas e 650 foram aceitas.

 

Desse total, 372 passaram à ação, em maio, com propostas oficiais. Em meados de julho serão divulgados os nomes dos três ou quatro candidatos, no máximo, para cada uma das 23 áreas da concorrência, escolhidos por um júri formado por representantes da prefeitura, de grupos políticos da assembleia municipal e de especialistas.

 

A seleção final será feita por um júri internacional, que anunciará os vencedores em janeiro. As obras poderão começar em seguida, segundo a prefeitura.

 

Críticos costumam dizer que diferentemente de cidades como Londres, por exemplo, Paris se tornou ultrapassada, congelada no tempo, com muitos prédios históricos e monumentos emblemáticos, sem grandes inovações arquitetônicas desde a Torre Eiffel, há mais de um século. No ano passado, foi inaugurada a Fundação Louis Vuitton de arte contemporânea, realizada pelo arquiteto Frank Gehry. O prédio é considerado o mais revolucionário construído na capital nas últimas décadas, depois da pirâmide do Louvre.

 

Com Reinventar Paris, a prefeitura quer criar "modelos da cidade do futuro" em termos de arquitetura, de novas utilizações do espaço urbano e de inovação ambiental. "Esse projeto se baseia na ideia de que é necessário transformar Paris, uma cidade de patrimônio histórico. É preciso dar uma segunda vida a certos prédios e para isso é preciso inovar do início ao fim do processo de construção ou de renovação do local", afirma Missika.

 

Na visão da prefeitura, o campo da inovação é "imenso" e vai desde as formas para levantar recursos, como o financiamento coletivo ("crowdfunding"), aos materiais e uso de espaços como telhados e subsolos e inclui, claro, o desempenho energético, com prédios que consomem pouca energia, e ambiental.

 

A utilização dos prédios também requer inovação, observa Missika. "Hoje existem novas maneiras de trabalhar, a distância ou em espaços de coworking [escritório compartilhado]. Também na área comercial há mudanças, como os showrooms compartilhados por diferentes empresas", afirma. Isso se aplica ainda a novas formas de moradia, onde jardins, hortas e dependências da casa podem ser divididos entre os residentes ou ainda a "habitação participativa", onde os moradores definem com os arquitetos o futuro projeto do prédio, acrescenta.

 

Por isso, a prefeitura privilegia projetos que sigam as mudanças do modo de vida urbano, com prédios inteligentes que possam ser compartilhados, ter sua utilização transformada e vários tipos de uso ao mesmo tempo - moradia, comércio, escritórios e atividades culturais. Um dos exemplos que se inserem nesse objetivo, entre as propostas recebidas, é o de criar uma residência para estudantes que se transformaria em hotel durante as férias escolares.

 

"Há uma grande diversidade de propostas. Os resultados vão além das nossas expectativas", ressalta Missika. "Há ideias arquitetônicas muito interessantes, mas nossa prioridade é o aspecto inovador dos projetos." Apesar da liberdade total na elaboração das propostas, a prefeitura, em alguns casos, exige a criação de moradias no local. Estão previstas cerca de 500 a 600 habitações.

 

Algumas das 23 áreas inspiraram mais os candidatos e receberam maior número de propostas. É o caso do prédio Morland, antiga sede da Secretaria de Segurança Pública de Paris com ares de imóvel soviético, às margens do rio Sena, entre a Île Saint-Louis e o bairro do Marais. Com 40 mil m2 (superfície disponível rara em Paris) ele oferece uma vista excepcional da cidade.

 

Uma das áreas que mais atraíram candidaturas foi a subestação elétrica Voltaire, construída no início do século passado e tombada pelo patrimônio histórico, nas proximidades do Cemitério Père-Lachaise, visitado por turistas do mundo todo. No local, a prefeitura deseja a criação de um cinema "popular e de qualidade", baseado em reflexões sobre "novas modalidades de funcionamento de um cinema".

 

Três antigas residências de nobres e membros da grande burguesia (os "hôtels particuliers") deverão ser transformadas seguindo regras da preservação do patrimônio. Um dos imóveis, construído entre os séculos XVII e XVIII, foi a casa da marquesa de Sévigné - cujas cartas se tornaram clássicos da literatura francesa - e fica na badalada rue des Francs-Bourgeois, no Marais. Outra, do século XV e tombada pelo patrimônio histórico, com 2 mil m2, no local da antiga faculdade de medicina, fica a poucos menos da Catedral Notre-Dame. Alguns projetos desafiam a imaginação, como é o caso da área na Porte des Ternes sobre a "marginal parisiense" (o "périphérique"), onde será construído um "prédio-ponte" sobre o sistema viário, de acordo com a prefeitura.

 

Os vencedores da concorrência poderão escolher se desejam comprar ou alugar os terrenos, informa Missika. Segundo ele, a participação do setor privado não resulta das atuais dificuldades financeiras da prefeitura, decorrentes da diminuição dos repasses efetuados pelo governo, que já provocam neste ano um rombo de € 300 milhões para fechar o orçamento de 2016. "Não é a primeira vez que lançamos projetos com fundos privados. A administração municipal tem um patrimônio enorme. Nós compramos mais do que vendemos."

A prefeitura anunciou, no fim do ano passado, que projeta vender anualmente € 200 milhões em bens imobiliários durante a gestão de Anne Hidalgo, que vai até 2020. É também até essa data, esperam as autoridades municipais, que deverão estar finalizadas as obras do Reinventar Paris.

 

A iniciativa se refere apenas a terrenos intramuros (no interior do sistema viário "périphérique"). Em 2016, a prefeitura prevê, segundo Missika, lançar uma nova concorrência desse tipo em áreas periféricas da cidade. Pelo visto, a "cidade patrimônio" vai ter muitas mudanças e inovações pela frente.

 

O brasileiro Urbem tem 12 projetos

 

Por Jacilio Saraiva

 

Um grupo de empreendedores brasileiros está prestes a realizar algo inédito no entorno da Torre Eiffel. Com parceiros da iniciativa privada, o Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), organização não governamental sediada em São Paulo, é um dos concorrentes do projeto de desenvolvimento urbano Réinventer Paris, promovido pela prefeitura da capital francesa. Pela primeira vez na história, o governo oferece um conjunto de 23 propriedades que pertencem à cidade e, por meio do concurso, passarão às mãos dos vencedores que apresentarem as melhores propostas de uso dos locais. A lista inclui de terrenos desocupados a prédios históricos às margens do rio Sena, umas das áreas imobiliárias mais valorizadas da França.

 

O Urbem é o único competidor brasileiro no evento, entre grupos de 15 países, como Alemanha, Japão e Holanda. "Essa iniciativa poderia ser replicada em outros locais, por governos preocupados com o futuro das cidades", diz o paulistano Philip Yang, fundador da entidade que também venceu em São Paulo, no ano passado, a concorrência aberta pelo governo do Estado para a criação do Casa Paulista, primeira parceria público-privada (PPP) do país voltada para a habitação social.

 

"A prefeitura francesa quer transformar os imóveis em plataformas de inovação urbana, mas com o lastro econômico dos finalistas do concurso", explica. Todas as 12 propostas de ocupação dos espaços apresentadas pela equipe de Yang foram aprovadas e se classificaram para as próximas etapas da seleção, que deve anunciar os vencedores em janeiro. As áreas que podem ser recuperadas pelos brasileiros somam um valor de venda acima de € 1 bilhão.

 

A jornada de Yang rumo a Paris começou no ano passado, quando o escritório de arquitetura franco-brasileiro Triptyque bateu à sua porta com o regulamento do concurso, lançado em novembro. "O desafio tinha tudo a ver com o trabalho do Urbem." O instituto criado em 2011 é mantido com doações de Yang, cofundador da Petra Energia, de exploração de petróleo e gás. O foco do Urbem é estruturar projetos que municiem o poder público e o setor privado com propostas que "gerem um tecido urbano mais justo e funcional". Para tocar suas iniciativas, contrata profissionais de diversas áreas, em todo o mundo, que possam contribuir no desenvolvimento das cidades. Com o programa francês não foi diferente.

 

Depois da visita dos arquitetos do Triptyque, que viraram parceiros de Yang, o empresário convidou dois sócios investidores para a iniciativa. Ângela Freitas, da família fundadora da Universidade Anhembi Morumbi, comanda desde o ano passado a incorporadora do Grupo Gamaro. Já Edson Moura é presidente da fabricante de baterias que leva seu sobrenome. Além deles, faz parte da sociedade a Ilion Partners, consultoria de investimentos imobiliários do francês Maxime Barkatz, com operações em Paris e São Paulo. "É a primeira vez que entro em um grande projeto sem recursos próprios", diz Yang.

 

Com a equipe executiva formada, ele recrutou os arquitetos que pensariam nas sugestões para a prefeitura francesa. Chamou 12 - e escolheu os melhores que podia. Do Brasil, conta com Paulo Mendes da Rocha, único brasileiro vivo ganhador do prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial; além de Angelo Bucci, Márcio Kogan, os escritórios MMBB e Andrade Morettin, mais o Triptyque. A escalação inclui o americano Alex Washburn, ex-diretor no departamento de planejamento urbano de Nova York, na gestão Michael Bloomberg (2002-2013), e o chileno Alejandro Aravena, vencedor de 2015 do prêmio do Museu de Design de Londres.

 

A aposta no capital criativo da empreitada funcionou. As 12 propostas do consórcio brasileiro estão a caminho da próxima fase do concurso, que engloba ofertas iniciais para as propriedades. Do total, sete são "greenfield”(terrenos livres para construções) e cinco são prédios que ganharão novas funções. Entre os desenhos dos profissionais há moradias, centros comerciais, salas de cinema e espaços que misturam áreas públicas e privadas.

Para se ter uma ideia do nível da competição, a prefeitura recebeu 815 aplicações, mas só 650 foram aprovadas. Há uma média de 30 consórcios concorrentes para cada um dos 23 locais disponíveis, além de outros arquitetos de mão cheia na disputa, como o aclamado japonês Sou Fujimoto, conhecido por assinar casas de paredes transparentes em Tóquio, e o canadense Michael Green, que pretende erguer em Paris, se aprovado, o maior prédio de madeira do mundo, com 35 andares.

 

Entre os terrenos oferecidos no edital, dois são considerados as "joias da coroa" do certame: quem conseguir o direito de transformá-los ganhará, certamente, destaque extra no mercado incorporador. Situado entre a Île Saint- Louis e o icônico bairro do Marais, na margem direita do Sena, o edifício Morland tem 40 mil metros quadrados de área construída e uma vista de 180 graus da cidade, a partir do terraço. Já a zona conhecida como Pershing, hoje um estacionamento de ônibus perto do Palácio do Congresso, foi liberada para virar um "edifício-ponte" sobre o anel viário da região.

 

O Urbem já fechou nove parcerias com incorporadoras francesas para desenhar o modelo de construção das possíveis obras. Há acordos com a Ogic, com quase 50 anos de mercado, e a Bouygues, que desenvolve plantas de habitação e parques empresariais em 40 locais na Europa. "Fiz bons contatos na feira Mipim, em Cannes." O evento, realizado em março, é considerado o maior do setor imobiliário internacional.

 

Por causa da concorrência, Yang já viajou à França quatro vezes neste ano. Em julho, embarca de novo para mais uma rodada de classificação. "Mas é um dos trabalhos que já fiz com mais prazer, até agora", revela o ex-diplomata que serviu em Genebra, Pequim e Washington, entre 1991 e 2001. O currículo do empreendedor, mestre em administração pública pela Universidade de Harvard, abrange ainda uma experiência como pianista na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

 

Enquanto a peneira das candidaturas segue no outro lado do Atlântico, ele continua de olho na paisagem local. Depois que o Urbem ganhou a concorrência para a concepção do Casa Paulista, que pretende construir prédios de 5 a 24 andares destinados a famílias de várias faixas de renda, o empresário decidiu participar do projeto também como investidor.

O objetivo do empreendimento, avaliado em R$ 4,6 bilhões, com investimentos do Estado de São Paulo, prefeitura e iniciativa privada, é erguer 14 mil unidades habitacionais em quatro áreas da capital. O primeiro contrato foi assinado em março, com a mineira Canopus Holding, vencedora da concorrência do primeiro lote. Será responsável pela entrega de 3,6 mil moradias na Barra Funda, com início das obras previsto para 2016.

 

"Fiquei satisfeito com a entrada da empresa. É um sinal de que a modelagem que criamos para a cidade funciona", diz. Agora, a ideia de Yang é se associar a uma construtora e disputar os três terrenos restantes. Com os recentes colapsos no setor das empreiteiras nacionais, é quase certo que o parceiro não falará português. 

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