Valor Econômico

21/02/2020

Para Rubens Ricupero, Brasil deve explorar de forma estruturada relações com a China e a Ásia


Por Rubens Ricupero — Para o Valor

21/02/2020 05h01  

Li de um fôlego o riquíssimo texto de Philip Yang (“O que o Brasil quer da China?” , EU& Fim de Semana, 14/2/2020), um dos mais provocativos ensaios inspirados pela crise brasileira que conheço. Ao lado dos trabalhos de André Lara Resende, impressionou-me como lufada de ar fresco na enfadonha repetição de mesmices que domina o debate econômico-político brasileiro.

Gostei de tudo, a começar da metáfora da “banana” para descrever a dualidade étnico-cultural do autor e sua experiência pessoal de filho de imigrante chinês diante da prodigiosa transformação da terra de seus ancestrais. Apreciei, sobretudo, a solidez em termos de ciências sociais da análise das razões múltiplas que explicam a diferença de resultados entre as quatro últimas décadas da China comparadas às do Brasil.

Mais do que o apelo da racionalidade, o que nos golpeia no texto é a emoção que permeia essa síntese magistral das perplexidades brasileiras, de inconformidade indignada entre o triunfo da China e o fracasso do Brasil.

Pode-se atenuar a humilhação alterando a base cronológica do paralelo. Nas quatro décadas de 1940 a 1980, quando crescemos em média a 7% ao ano, multiplicando 15 vezes o PIB e 5 a renda per capita, apesar de a população ter triplicado, o Brasil provou que seu DNA não é incompatível com o êxito. Nosso passado foi melhor que o presente, o que não nos serve muito de consolo se o futuro ameaça repetir o presente e ser pior que o passado.

Também é possível esmiuçar pontos específicos, como a ênfase relativa a atribuir na explicação das diferenças os diversos fatores examinados. Nada disso, porém, modifica o objetivo central do texto, que é propor uma nova estratégia externa para o Brasil. Por isso é que se deve saborear o ensaio na sua integridade, evitando o erro de se concentrar nas árvores e deixar de ver a floresta.

Não é propósito do autor sugerir que o país precisa reproduzir a inimitável experiência chinesa. O que ele propõe é, a partir de nossos valores e nossas qualidades, que encontremos caminho próprio de desenvolvimento. Para tanto, temos de adotar estratégias externas que reflitam a mudança tectônica do século XXI: a transferência do eixo demográfico-econômico do mundo do Atlântico Norte para o Pacífico, a Ásia, a China.

Não insinua tampouco que deveríamos trocar os EUA pela China em termos de alinhamento. Rejeitando qualquer alinhamento, conservando abertas todas as oportunidades, o Brasil necessita explorar de forma mais estruturada a complementaridade com a China (e acrescento) e com a Ásia em fornecimento de alimentos e de energia.

Essa simbiose já opera na prática por meio da exportação de soja, milho, carnes, petróleo em bruto, minério de ferro, que constituem a quase totalidade das vendas brasileiras ao mercado chinês. Falta, no entanto, criar condições para que investimentos chineses nessas áreas contribuam para elevar o valor adicional das exportações, ultrapassando o estágio neocolonial de troca de matérias-primas por manufaturas sofisticadas.

Essa estratégia aconselhada por Philip Yang ganharia alcance muito maior se fosse estendida a todo o Mercosul. A capacidade produtiva somada do Brasil, da Argentina e, em grau menor, do Uruguai e Paraguai, constituiria em alimentos e energia um respeitável bloco de oferta, em condições de reduzir em certa medida a disparidade de poder com a China.

O analista está consciente de que os chineses disporiam em tese de alternativas, a mais evidente das quais seria a complementaridade em relação à Rússia, com a qual Pequim tende a estreitar aliança político- militar em resposta à crescente hostilidade do governo Trump. Ainda existiria para o governo brasileiro uma janela aberta que necessita ser aproveitada por meio da construção com a China de real parceria estratégica apta a superar a má vontade ideológica predominante no início do mandato de Bolsonaro e não dissipada de todo.

A estratégia recomendada no trabalho é plausível e realista. Não só está presente em germe no atual padrão de trocas comerciais. Nos anos 1970, tivemos algo parecido com o Japão, cujo financiamento e cooperação técnica viabilizaram o aproveitamento agrícola do cerrado, abrindo fonte segura de abastecimento de grãos para aquele país.

Exigiria, é claro, deixar de lado o alinhamento ideológico com o governo Trump, recuperar autonomia a fim de poder explorar oportunidades com todos os parceiros, sem nos atrelarmos à agenda de conflitos e inimizades dos EUA ou de qualquer outra nação. Supera de modo incomparável a atual orientação, que nos condena a comprar brigas americanas com a China, a Rússia, o Irã, os palestinos, sem nenhuma compensação política, como se vê pelo tratamento brutal aos imigrantes brasileiros ilegais.

Além de limitar nossas exportações com cotas, tarifas e ameaças, o governo Trump nada tem a nos oferecer em matéria de complementaridade comercial. Em manufaturas, a indústria brasileira não possui competitividade para concorrer no mercado americano com os asiáticos ou com o México, vizinho contíguo já integrado há 20 anos nas cadeias de produção ianques.

No agronegócio, onde se concentram nossas vantagens competitivas, os EUA são nossos principais concorrentes, não hesitando em pressionar a China a desviar importações para seus agricultores, em prejuízo dos produtores nacionais.

A originalidade do ensaio, contudo, reside na identificação de um setor vital, o do reordenamento do espaço urbano, no qual tanto a China quanto o Brasil perderam até agora a chance de dar um sentido novo ao desenvolvimento. Yang utiliza sua experiência de visionário lançador de empreendimentos habitacionais para demonstrar que, deixada a si mesma, a lógica perversa do preço das terras expulsa para periferias cada vez mais esquálidas e distantes as populações de menor renda nos dois países, criando guetos de ressentimento social.

Diante do desafio comum, propõe uma abordagem pela qual o Brasil se torne para a China, no âmbito da Quarta Revolução Industrial, o que a China foi para os EUA no contexto da Terceira. Isto é, um programa de atração de investimento chinês em cidades, infraestrutura e nas tecnologias urbanas que configuram a Quarta Revolução. Proporcionaria o caminho que buscamos até agora em vão para que a economia brasileira recupere a competitividade que perdeu na Terceira Revolução.

Além disso, geraria poderoso instrumento de inclusão e promoção social por meio do acesso e da distribuição à população das periferias de bens coletivos urbanos em educação, saúde, diversão, bem-estar.

Em breve, o leilão da velocidade 5G porá à prova a viabilidade da ideia. No momento, segundo os especialistas (ver a coluna de Pedro Doria, “O custo Trump-Bolsonaro no 5G”, “O Estado de S. Paulo”, 14/2/2020), metade da infraestrutura 4G do país é Huawei, e esse equipamento será reaproveitado pelas operadoras para suas redes 5G. Caso se confirme o rumor de que o governo cederá às pressões americanas, limitando a Huawei a 35% do mercado e excluindo-a do fornecimento de infraestrutura, a decisão comprometerá a exequibilidade do projeto. Ademais, onerará o consumidor, uma vez que os dois concorrentes dos chineses oferecem equipamento inferior a preço mais caro.

Por essas e outras limitações eventuais, a estratégia sugerida no plano externo deveria ser complementada no interno pela recuperação da capacidade de investimento do setor público em infraestrutura como propunha Lara Resende em sua cruzada heroica contra a ditadura da sabedoria convencional.

A solução ligada à urbanização pode surpreender pela novidade, mas faz todo sentido. No futuro, a quase totalidade da população mundial viverá em cidades, como já sucede no Brasil, onde o índice real é mais de 90% se desconsiderarmos o critério do IBGE de só classificar como urbanos centros de mais de 20 mil habitantes. Passa pelas cidades, portanto, qualquer solução dos impasses atuais. As tecnologias de vanguarda, aliás, são quase todas de utilização urbana.

Mas a solução passa também por outra dimensão um tanto ausente no trabalho, a ambiental. Se não se conseguir controlar o aquecimento global, a própria civilização das cidades correrá o perigo de não sobreviver. Conviria assim que o autor incluísse a questão do clima em sua análise, e não apenas como a mãe de todas as ameaças globais. Da mesma forma que a urbanização, o clima é ameaça e ao mesmo tempo oportunidade de redefinir a economia, de promover a migração para uma economia verde capaz de gerar investimentos maciços em novos tipos de empregos.

 

Como na utopia de Maio de 68, ela nos interpela não só a mudar de vida, mas a mudar a vida, os hábitos de produção e consumo. Ela nos força a reconhecer que, tal como existe hoje, o sistema econômico é incapaz de dar solução aos três desafios cruciais da humanidade: o aquecimento global, a desigualdade crescente e o desemprego estrutural.

Rubens Ricupero é diplomata aposentado e professor

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