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Para onde vão nossas metrópoles?

As cidades projetam no território aquilo que uma coletividade almeja ser no presente e no futuro. Caberá a nós mesmos – governo, mercado e sociedade civil – decidir para onde queremos ir

 

Philip Yang

Especial para Mundo - outubro de 2016

 

O sucesso de cada país é cada vez mais medido pelo sucesso de suas cidades, pela capacidade de seus povos de promoverem o desenvolvimento urbano, de construírem cidades mais eficientes, justas e belas, que gerem e atraiam o melhor capital intelectual. Isto porque, nas últimas décadas, assistimos a uma transformação da matriz produtiva global.

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Na “economia do conhecimento”, que se consolida como um novo paradigma de produção, o conhecimento, mais do que o trabalho, se torna o insumo mais importante em toda a cadeia de valor. A maior parte do produto global (70%) é gerado pelo setor de serviços localizado em cidades, e não pelos segmentos de produção de bens situados em áreas peri-urbanas e rurais. Segundo o Banco Mundial, 90% da população da América Latina viverá em cidades em 2050.

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Esse crescimento explosivo da economia e da população das cidades, entretanto, não gera espaços urbanos sadios. Muitas metrópoles experimentam uma expansão marcada por fortes desequilíbrios entre a oferta de espaços de moradia e espaços de trabalho, pela carência de áreas públicas de lazer, pela desproporção entre zonas permeáveis e não-permeáveis. Tais desajustes são geradores de segregação, instabilidade social e vulnerabilidade ambiental. Outras cidades, no entanto, têm sido capazes de gerar territórios mais balanceados, criando uma oferta mais equilibrada de áreas destinadas à habitação, ao trabalho, aos serviços e ao lazer. Promovem, assim, um convívio social mais plural.

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Como explicar essas diferenças na evolução das cidades? Ao lado de determinantes geográficos, históricos e culturais, a ocupação e o crescimento das cidades é sempre o resultado de vontade coletiva, que se expressa por relações de conflito ou cooperação entre três poderes: o político, o econômico e o social. Nas sociedades democráticas modernas, é a resultante desses três vetores de poder que determina os diferentes graus de viabilidade, sucesso e sustentabilidade do “fazer cidade”. Quanto mais intensa e convergente a interação, maiores as condições de mobilizar melhores ideias e mais poderosos os antídotos contra o populismo, a ganância, o radicalismo.

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Aspecto crítico do momento histórico atual é a tensão inédita entre o mundo político, o mercado e a sociedade. As massas, impulsionadas por redes sociais, rapidamente ocupam as ruas, muitas vezes com agendas difusas. As forças de mercado induzem a privatização de diversos âmbitos da vida social e econômica. O enfraquecimento dos Estados – derivado de crises fiscais ou de representatividade – se aprofunda como tendência global.

Temos uma nova matriz econômica, a “economia do conhecimento”, mas essa nova economia ainda não gerou uma fórmula política de governança que regule o equilíbrio entre mercado, governo e sociedade. Ao contrário do que aconteceu na Era Moderna, durante a qual buscou-se o centralismo político dos Estados-nação, busca-se hoje o aprimoramento de uma organização político-territorial mais descentralizada, na escala espacial das cidades e metrópoles.

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No século XVIII, Montesquieu elaborou teoria política assentada na separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, a qual serviu como base das doutrinas constitucionais liberais. A autonomia desses três poderes clássicos fundamentou o processo de consolidação dos Estados modernos, nos quais se logrou promover um equilíbrio entre o centralismo politico (sem os vícios do despotismo autocrático que marcavam as monarquias absolutistas), a liberdade econômica e, paulatinamente, direitos de representação política a outros grupos de interesse.

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A “era do conhecimento” nos demanda uma teoria política que propicie uma nova governança para as cidades. É nesse contexto que as metrópoles devem pensar e construir o seu futuro. As cidades brasileiras serão bem sucedidas na medida em que forem aptas a estabelecer um regime regulatório capaz de dirimir os conflitos entre governos, setor privado e sociedade civil, com vistas à construção de um ideal de cidade que se situe para além de interesses particularistas.

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Um novo pacto político precisará ser concebido se desejarmos evitar uma condição urbana precária para construirmos cidades com alma, animadas e vibrantes, marcadas por uma vigorosa paisagem, representativa de valores e anseios coletivos, que propiciem qualidade de vida, promovam a justiça, a criatividade e a inovação, atraiam os melhores talentos e nos posicione entre os principais polos dinâmicos da economia mundial.

Os marcos regulatórios brasileiros avançam nessa direção, mas em ritmo lento, e as forças de governo, de mercado e cívicas ainda carecem de um quadro normativo facilitador de um diálogo mais ágil, intensivo e construtivo. Após a publicação do Estatuto da Cidade (2001), municípios avançaram na elaboração de Planos Diretores, mas a qualidade de seus textos varia muito de cidade a cidade. Vários municípios demarcaram as chamadas ZEIS, zonas destinadas habitações de interesse social, mas poucos empreendimentos foram realizados nesses territórios.

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As políticas habitacionais federais e estaduais como o “Minha Casa Minha Vida” viabilizam moradias fora das ZEIS, em anéis periféricos, fabricando ou reproduzindo bolsões de pobreza e exclusão social. O mercado incorporador segue construindo imóveis murados, gerando ruas mortas e esterilizando a vida em comunidade e a fruição de espaços públicos. Governo e mercado, sem coordenação, agravam a segregação social, incentivando a separação espacial pela indução de guetos de ricos e de pobres.

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Nas metrópoles, a partir dos anos 1980, a desconcentração industrial avançou mais rapidamente do que a adequação das leis de zoneamento, fazendo com que diversas áreas antes industriais, centrais e ricas em infraestrutura, não pudessem ser aproveitadas para a formação de tecidos urbanos condizentes com as novas demandas da sociedade. Planos de reforma urbana deveriam se concentrar nessas áreas centrais degradadas, recuperando-os pela combinação de moradia e serviços e para a produção de espaços de habitação social.

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As cidades são expressões de uma época traduzidas no espaço. Uma cidade fechada, intolerante, constituída por guetos de pobres e ricos, destituída de espaços públicos onde o convívio plural possa florescer, nos levará certamente à distopia social e à esterilidade criativa. Pense nisso ao escolher seu próximo prefeito: pouco importa se o partido dele é pró-mercado ou pró-Estado. O que importa é saber se ele será capaz de agremiar forças em torno de propostas estruturais que possam enfrentar o problema da formação dos guetos sociais urbanos. Temos algum candidato com uma agenda assim?

 

Philip Yang é mestre em administração pública pela Universidade Harvard e fundador do Urbem, Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole

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