16ª Bienal de Arquitetura de Veneza (2018) - Muros de ar - Catálogo

maio de 2018

 

Philip Yang e Marcela Alonso Ferreira

A consciência de que a cidade é o maior e mais complexo artefato já́ criado pelas civilizações levou o tema urbano a ser estudado por diferentes campos do conhecimento, muito além da disciplina clássica do urbanismo. Como decorrência, metáforas diversas passaram a ser usadas para representar a cidade, revelando as novas visões e as distintas perspectivas analíticas e metodológicas que esse conjunto ampliado de abordagens enseja.

 

A semiótica e a psicologia social, por exemplo, leem a cidade como signo.  Com referência nas ciências da vida, ela passa a ser vista como organismo vivo, e suas redes físicas são descritas como tecidos,  numa alusão aos conjuntos de células que constituem animais e plantas. Uma metáfora derivada da bioquímica, metabolismo urbano, passa a designar os fluxos de energia, água, alimentos e resíduos presentes nas cidades.

 

A ubiquidade, no meio urbano, das commodities, entendidas como produtos genéricos destinados ao uso comercial, convida à construção de outra metáfora, derivada da mecânica: a cidade-máquina, consumidora e processadora desses produtos. Embora menos sedutora do que as figuras de linguagem derivadas da genética, da física quântica ou do universo digital, a alegoria da cidade-máquina parece útil, pois pode contribuir com um corte analítico capaz de promover um melhor entendimento (1) do papel de uma cidade em relação a outras, (2) das funções de certas porções territoriais, em nível suburbano, em relação as demais, (3) do trajeto histórico percorrido por certas cidades e, quicá, (4) de seus caminhos e vocações futuros, neste momento histórico em que diversas cidades realizam a transição de industriais para pós-industriais.

 

Como sabemos, o prefixo pós é usado para designar o período que sucede algo que reconhecidamente terminou, mas ainda não apresenta características definidoras claras. Dada, assim, a onipresença das commodities nas cidades, uma análise do território urbano como máquina para o seu consumo, processamento e distribuição pode descortinar tendências e possibilidades, positivas ou negativas, acerca de seu futuro.

 

A economia define as commodities como um conjunto de produtos genéricos, básicos e altamente fungíveis, ou seja, sem maior diferenciação de variedade, a ponto de sua origem ou produtor serem irrelevantes para quem os consome. Entre tantas categorizações possíveis, as commodities podem ser classificadas como extrativas (ferro, cobre, zinco, alumínio), energéticas ou fósseis (gás, carvão, petróleo) e agrícolas (soja, arroz, trigo). Em função do processo amplo de “comoditização” de bens industrializados, pode-se afirmar também que as commodities industriais se impõem como uma quarta categoria analítica necessária.

 

As diferentes relações que cada meio urbano estabelece com as commodities permitem classificá-los experimentalmente em cinco categorias de cidades- máquina: produtora, consumidora, comercializadora (trader), agregadora de valor (value adder) e comercializadora agregadora de valor (value adder trader).

 

Cidades como Gillette, em Wyoming, ou Araxá, em Minas Gerais, se distinguem por serem grandes produtoras de commodities, carvão e nióbio, respectivamente; exibem economias pouco diversificadas e mercados pequenos, o que, portanto, não as notabiliza como máquinas nas demais categorias. Podemos talvez pensar que ambas pertencem a um subtipo caracterizado pela extração intensiva de commodities não fósseis e pelo consumo, também intensivo, de commodities fósseis.

 

Veneza e outras cidades situadas na Liga Hanseática ou na Rota da Seda exerceram com primazia a função de comercializadoras de bens. Ao longo da história, as cidades comerciais desempenharam um papel central na transferência de bens e na troca de ideias entre partes diferentes do mundo. Como efeito colateral, o comércio trouxe riqueza e acumulação de capital, que permitiram aprimorar processos industriais, como a impressão e a fabricação de vidro e papel, além de impulsionar o avanço da medicina, da filosofia, da astronomia e da agricultura.

 

Chicago se destaca entre as grandes cidades por abrigar a maior plataforma de comercialização de commodities do mundo. O Chicago Mercantile Exchange movimenta um volume comercial de produtos básicos que atinge a cifra de 1 quadrilhão de dólares anuais, embora a cidade não abrigue, dentro de seus limites, entrepostos associados a essas transações, que se referem sobretudo a operações virtuais, materializadas em todo o planeta.

 

Grandes metrópoles como Xangai, São Paulo e Londres atuam como máquinas urbanas nas cinco categorias já mencionadas, com maior ou menor ênfase em cada uma das características que as definem. Os níveis de ação como  agregadoras de valor serão certamente superiores em cidades mais maduras, com recursos materiais e intelectuais maiores. E embora essa correlação seja intuitivamente óbvia, as nuances que podem ser inferidas a partir de estudos quantitativos mais aprofundados são potencialmente reveladoras de causas e efeitos sociais e econômicos menos evidentes e mesmo em direções opostas.

 

As cidades-máquina envolvidas nas funções de agregação de valor e de comercialização de valor agregado desempenham justamente as funções de “descomoditização”. Ao atuar no processo de agregação de valor, buscam fazer com que bens de natureza fungível, ou indiferenciados, passem a adquirir características de diferenciação. Essa diferenciação se dá necessariamente no campo da inovação: aprimoramento dos bens, branding e comercialização, oferta de serviços associados a eles.

 

Num movimento de escala menor, mas representativo de novas tendências, diversas cidades maduras do mundo desenvolvido que apresentam hoje uma produção de commodities próxima a zero esforçam-se para iniciar a produção agrícola no meio urbano. Em paralelo, diversos consumidores dessas cidades passam a buscar commodities de origem certificada e, assim, diferenciados, rompendo a natureza do conceito de commodity, que é a não diferenciação. Milho não modificado geneticamente, ovos de galinhas livres, verduras orgânicas e carnes sem antibióticos são apenas alguns exemplos dos produtos oferecidos aos consumidores interessados na rastreabilidade (e, portanto, na diferenciação) das commodities.

 

Em outro exemplo, eventualmente de maior escala, o aprimoramento da impressão em 3D permitirá, num futuro próximo, que commodities industriais hoje produzidas em áreas periurbanas possam ser produzidas em ambientes urbanos e até mesmo domésticos. Peças automotivas, calçados, circuitos integrados e chips fazem parte desse novo universo de produção, que passará a ter origem não rural e não industrial em volumes crescentes.

 

Os diferentes exemplos esparsa e desordenadamente enumerados acima  sugerem que as formas de tratamento e consumo dessas mercadorias no meio urbano são indicadores vivos de diversas tendências econômicas e sociais em curso nas cidades. As commodities e a comoditização de bens industriais estão associadas aos setores tradicionais da economia, enquanto a busca de diferenciação dos produtos se relaciona com a chamada nova economia, dominada pelo setor de serviços intensivos em conhecimento. No plano da demanda, a proporção entre o consumo dos diferentes tipos de commodities pode indicar os vícios e virtudes de cada máquina urbana e sugerir um curso de ação para determinados setores.

 

Pode-se concluir, a partir desta divagação, que a sistematização na cidade-máquina de uma matriz insumo-produto com foco nas commodities poderá gerar, eventualmente, um conjunto de indicadores capazes de orientar os agentes urbanos quanto (1) à sustentabilidade de seus processos, (2) a seu posicionamento em relação aos novos paradigmas de produção que emergem na era digital, (3) ao nível de preparo de suas populações em relação às possibilidades de produção e consumo de bens de maior valor agregado e, por fim, (4) a seu possível reposicionamento na divisão internacional do trabalho que, como sabemos, é fortemente hierarquizada.

 

Embora sejam menos atraentes para o mercado das ideias do que as metáforas derivadas de disciplinas emergentes, as linhas de pesquisa que avançam nesta direção – em torno da cidade-como-máquina-processadora-de-commodities – parecem, portanto, merecer integrar a ordem do dia. Sobretudo se lembrarmos que a reestruturação econômica global, a partir dos anos 1970, foi acompanhada também por uma reestruturação espacial das cidades, que passaram a assumir funções diferenciadas. Enquanto algumas se tornaram centros de comando da economia global, concentrando funções de gestão da economia,  outras permaneceram vinculadas a atividades produtivas. Nessa hierarquia econômica e territorial, destacam-se as cidades que são capazes de gerir seus territórios de modo a induzir sua transformação em novas cidades-máquina produtoras de inovação.

 

Philip Yang (São Paulo-SP, 1962) é mestre em administração pública pela Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard, e fundador do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem).

Marcela Alonso Ferreira (São Paulo-SP, 1989) é arquiteta e urbanista pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em gestão e políticas públicas na Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Coordenadora de projetos no Urbem, dedica-se a atividades de pesquisa no âmbito das dinâmicas de regulação urbana.

1. Ver o interessante artigo de Nikita A. Kharlamov, “The City As a Sign: A Developmental- Experiential Approach to Spatial Life”, in Jaan Valsiner (org.), The Oxford Handbook of Culture and Psychology. Nova York: Oxford Library of Psychology, 2012.

2. Ver os estudos de morfologia urbana e referências ao tecido urbano em Saverio Muratori, Studi per una operante storia urbana

di Venezia, vol. 1. Roma: Istituto poligrafico dello Stato: Libreria dello Stato, 1960.

3. Ver, por exemplo, as linhas de pesquisa desenvolvidas pela Delft University of Technology. Disponível em: urbanmetabolism. weblog.tudelft.nl/what-is-urban- metabolism/. Acesso em mar. 2018.

4. Historicamente, as cidades extrativistas que não diversificaram suas economias, como Ojuela, no México, Sewell, na Virgínia Ocidental (Estados Unidos), ou Copperfield, em Queensland (Austrália), tornaram-se cidades-fantasma logo que o produto de extração se exauriu. Num exemplo brasileiro e mais próximo, o Rio de Janeiro viveu a glória e o colapso fiscal e social com a ascensão e a queda dos preços do petróleo, fonte principal dos royalties que vinham trazendo vigor à cidade.

5. Saskia Sassen, The Global City: New York, London, Tokyo. Nova Jersey: Princeton University Press, 2001.

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