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'Negociação não é alternativa à firmeza; é consequência dela', diz Philip Yang, ex-diplomata que defende retaliação do Brasil a tarifaço dos EUA
Por Luciana Casemiro
28/07/2026 09h16
Enquanto boa parte dos exportadores e dos economistas se colocam contra qualquer atitude retaliação brasileira a nova onda de tarifas impostas pelo governo americano, Philip Yang, fundador Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem) e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) surge como uma voz dissonante. Mestre em Administração Pública pela Harvard Kennedy School e ex- diplomata, ele defende precisamos falar no "idioma" de Donald Trump para sermos ouvidos. O caminho para uma retaliação eficiente, afirma, foi traçado pelo próprio governo americano e a longa de lista de exceções a taxação, que mostra quais os produtos em que a dependência americana em relação ao Brasil
Em artigo assinado na Folha de S.Paulo, em parceria com a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, nos EUA, Yang propõe que o Brasil aplique tarifa de exportação exclusivamente a produtos destinados ao mercado americano. Na conversa com o blog, ele explica como poderíamos fazer com que esse custo fosse absorvido pelo importador americano. Para Yang, se estivermos preparados e de fato dispostos a retaliar os Estados Unidos, isso pode vir a sequer ser necessário:
A força deste instrumento está mais na ameaça do que no disparo. O mecanismo é assim: anunciado o imposto, com arcabouço jurídico pronto e prazo definido, a pressão muda de endereço no mesmo instante. Ela deixa de ser do Brasil sobre Washington e passa a ser de americanos sobre Washington: consumidores que sentirão a inflação no bolso, na prateleira do café e do suco, e empresários que verão suas cadeias produtivas ameaçadas. Cada torrefadora, cada siderúrgica que roda com o nosso gusa, liga para o seu congressista, e com eleições de meio de mandato em novembro, congressista americano atende o telefone
A entrevista com o blog antecipa a discussão que será feita nesta terça-feira, no webinar "É possível negociar sem retaliar? O Brasil diante do tarifaço", que será promovido pelo Cebri, das 11h às 12h30m, com a participação de Yang, De Bolle e mais cinco especialistas, neste link.
Confira a íntegra da entrevista
O Brasil está há um ano negociando com os Estados Unidos e parece não ter conseguido avançar muito, já que ficou novamente no topo dos países mais taxados pelo governo americano, abaixo apenas da China. Há espaço para negociar ainda? Se há, qual seria?
Vamos começar pelo diagnóstico honesto: ao longo de doze meses, as exigências que Washington apresentou batiam de frente com nossas leis e com nossas obrigações no Mercosul; eram condições desenhadas para não serem aceitas. E o resultado está aí: mesmo sem o Brasil ter feito nada, a tarifa subiu de 25% para 37,5% em uma semana, reconstituindo por etapas os 50% que a Suprema Corte americana havia derrubado em fevereiro. Isso responde à sua pergunta sobre espaço para negociar: com este governo americano, a experiência recente mostra que a mesa só se abre quando o outro lado sente custo. A China respondeu com controles sobre terras raras e Washington negociou em semanas. O Canadá retaliou em 2018 e a tarifa caiu onze meses. Negociação, com este interlocutor, não é alternativa à firmeza; é consequência dela. E o curioso é que o próprio tarifaço nos entrega o manual.
Como assim?
Com as tarifas, os EUA publicaram uma lista de exceções cobrindo aquilo de que não podem prescindir: café, carne, suco de laranja, ferro-gusa, nióbio, aeronaves e peças.
Ora, um governo que isenta cuidadosamente tudo o que precisa comprar de nós está publicando, com carimbo oficial, o mapa da própria dependência. Para falarmos a mesma língua, e no mesmo tom, basta ao Brasil atuar exatamente sobre essa lista. E temos as ferramentas para isso.
Qual é o caminho para essa fatia dos exportadores que tiverem suas vendas para o mercado americano praticamente inviabilizadas?
Quanto aos exportadores que ficaram do lado tarifado, e é bom lembrar que são cerca de um quinto da nossa pauta para os EUA, eles não deram causa a esse conflito e merecem apoio integral. O desenho que defendo com a Monica De Bolle resolve as duas coisas de uma vez: um imposto de exportação sobre os produtos da lista de exceções gera receita, e essa receita financia a compensação dos setores atingidos. O socorro que o governo já montou passaria a pagar-se sozinho. Em vez de o contribuinte bancar a conta da agressão americana, quem a banca é o comprador americano
O senhor e a economista Monica De Bolle defenderam em um artigo, publicado na Folha de S.Paulo, na semana passada, a retaliação aos Estados Unidos. Mas qual de fato a possibilidade que temos de pressionar o governo Trump via retaliação?
A possibilidade de pressão é real e é mensurável, porque não depende de tamanho de PIB, depende de substituibilidade. Os EUA compram do Brasil 35% do café que consomem, mais da metade do suco de laranja importado, a maior parte do ferro-gusa que alimenta suas siderúrgicas, e não mineram nióbio desde 1959, num mercado em que o Brasil controla cerca de 95% da produção mundial. Nesses produtos, a economia é de manual: quando o vendedor domina a oferta e o comprador não tem substituto, um imposto de exportação atravessa a fronteira e chega ao preço na prateleira americana
Não é bravata, é incidência tributária. E repare na ironia: quem fez essa análise para nós foi o próprio USTR, ao isentar exatamente os produtos em que o repasse seria maior.
O instrumento existe e está testado. O imposto de exportação está na Constituição, é regulado por uma lei de 1977 e pode ser fixado por resolução da Camex, com efeito imediato, sem passar pelo Congresso, com alíquota ajustável até 150%. Ao contrário de embargos e cotas, é defensável na OMC. E o Brasil sabe operá-lo: cobramos esse imposto sobre o couro wet blue por dezoito anos, entre 2000 e 2018, sem contestação que o derrubasse.
Controles administrativos de exportação também estão no arsenal, mas como reserva; a porta de entrada é o tributo, que é calibrável, reversível e juridicamente sólido. Tudo com prazo explícito, revisão periódica e vinculação expressa ao ataque que responde: a medida expira no dia em que os EUA aceitarem negociar de boa-fé.
Mas quanto ao risco de escalada de tarifas contra os produtos brasileiros?
Sobre o risco de escalada, deixo dois fatos. Primeiro, a escalada já aconteceu sem retaliação nenhuma: saímos de 25% para 37,5% comportando-nos exemplarmente e, pelo visto, a reconstituição só para nos 50% originais
Quem teme que a firmeza provoque Washington precisa explicar por que a docilidade não o acalmou. Segundo, a própria lista de exceções revela o teto da escalada comercial: dois terços do nosso comércio foram poupados porque não podiam deixar de ser. O risco existe, não o nego, mas ele é menor do que a retórica sugere, e a inação tem um risco maior e silencioso, que é publicar o preço da próxima agressão.
E há uma última dimensão, que talvez seja a mais importante. O Brasil foi escolhido como caso de teste da Seção 301, o primeiro da fila. Atrás de nós vêm sessenta países atingidos pela segunda ação e uma investigação em curso contra dezesseis dos maiores parceiros comerciais dos EUA, da União Europeia ao Japão, do México à Índia.
O que o Brasil aceitar aqui vira o gabarito aplicado a todos, inclusive a nós mesmos nas próximas rodadas. E o que o Brasil fizer de novo vira repertório mundial: nenhum país, até hoje, usou o imposto de exportação como instrumento de retaliação
Não é ideia de dois articulistas: a Monica tem congregado especialistas de vários países em torno dos modelos de resposta possíveis, calibrando o desenho que maximiza o custo lá fora e minimiza o dano aqui dentro, e economistas como Richard Baldwin, do Peterson Institute, já defendem que os parceiros dos EUA adotem exatamente esse instrumento.
Há ainda uma elegância adicional: a Constituição americana proíbe o imposto de exportação desde 1787. É uma arma que só nós podemos usar; eles não têm como responder na mesma moeda. Num momento em que a ordem do pós-guerra está sendo reordenada a golpes de precedente, o Brasil pode ser autor dessa jurisprudência ou nota de rodapé dela.
Essa não é uma visão otimista? O que leva a crer que esse seria o melhor caminho?
Temos uma régua que configura a ordem internacional em formação. Numa ponta, a China, que respondeu com controles de exportação e obteve em semanas o que ninguém mais obteve: uma mesa de negociação e suspensões mútuas
Na outra, a Índia, que apostou tudo na negociação gentil e colheu tarifas crescentes e ameaças adicionais
No meio, o Canadá, que reage com firmeza desde 2018 e arranca concessões, e a União Europeia, que tem sido branda e acumula tarifas sem contrapartida. A régua não mede tamanho de economia; mede postura. Cabe a nós escolher onde nos posicionar nela.
O imposto sobre exportação funcionaria de forma diferente do que está sendo aplicado pelo governo brasileiro ao produtor de petróleo? É que nesse caso incide direto na receita, ou seja, o produtor quem paga. Como fazer com que os importadores americanos paguem lá?
A sua pergunta vai direto ao coração do desenho, e há um par de termos do jargão econômico que explica tudo de saída: price taker e price maker, o que segue o preço e o que faz o preço.
No petróleo, o Brasil é price taker: somos um vendedor pequeno num oceano, nosso barril responde por uns 7% da importação americana e o preço é o Brent, dado pelo mundo. Se o exportador tenta cobrar o imposto no preço, o comprador dá de ombros e compra o barril seguinte, da Guiana ou do Golfo; resultado, o produtor engole o tributo na própria margem, exatamente como você descreveu.
No café, no suco de laranja, no ferro-gusa e sobretudo no nióbio, a posição se inverte: o Brasil é price maker, formador de preço pelo poder da oferta. Fornecemos 35% do café que os americanos bebem, mais da metade do suco que importam, e no nióbio simplesmente não há de quem mais comprar. Quando a torrefadora americana recebe a fatura com o imposto embutido, ela não tem um "barril seguinte": Colômbia e Vietnã juntos não repõem um terço do mercado americano, nem em um ano. Ela paga. O imposto atravessa a fronteira dentro do preço e aterrissa na prateleira de lá. Essa é a distinção que soa técnica, mas decide tudo: quem recolhe o imposto e quem paga o imposto são pessoas diferentes. Juridicamente, o mecanismo é idêntico ao do petróleo, e é bom que seja: alíquota fixada pela Camex, exportador recolhendo no embarque, dinheiro no Tesouro. O imposto do petróleo prova que a máquina existe e está funcionando neste momento. A diferença toda está na economia que acontece depois do recolhimento, e ela depende de uma única pergunta: nesse produto, somos price takers ou price makers? A lei diz quem recolhe; o mercado decide quem paga.
Na prática, funciona assim: a Camex publica uma resolução taxando, digamos, em 12,5% o café, o suco e o gusa destinados aos Estados Unidos, e só a eles; as vendas para o resto do mundo seguem intocadas. O exportador brasileiro, no contrato seguinte, cota o embarque para os EUA com o imposto no preço, porque sabe que o comprador não tem alternativa, e sabe também que pode desviar carga para a Europa ou a Ásia se o americano relutar, o que aperta ainda mais a oferta lá e reforça o repasse.
É por isso, aliás, que a lista de exceções do próprio USTR é o nosso critério de mira: eles isentaram exatamente os produtos em que o Brasil é price maker, aqueles em que sabem que o repasse ao preço americano seria máximo. Washington fez a nossa lição de casa de incidência e publicou no Diário Oficial deles.
Mas há como garantir, de fato, que essa conta vai ser do importador americano?
Agora, a honestidade que devo à sua pergunta: o repasse nunca é de cem por cento, e varia por produto. No café, a maior parte atravessa; no ferro-gusa, em que um polo como Sete Lagoas vende 85% da produção aos EUA, uma fatia maior fica com o produtor daqui.
É para esse resíduo que existe a outra metade do desenho: a receita que o imposto arrecada, e ele arrecada bastante, financia a compensação dos setores que absorverem parte do custo, definida no mesmo ato. Comparando com o petróleo, então: mesma máquina, mira oposta. Lá taxamos um produto em que somos price takers, com objetivo fiscal, e o produtor paga. Aqui taxaríamos os produtos em que somos price makers, com o objetivo de fazer o preço subir do lado de lá, e o que sobrar do lado de cá volta ao setor pela compensação.
E note que o mesmo critério explica por que não proponho retaliar com tarifas de importação: como compradores dos EUA, somos price takers em quase tudo, bens de capital, insumos, tecnologia; tarifar a importação encareceria a nossa própria indústria sem mover preço algum lá dentro.
A régua do poder de mercado manda agir pelo lado em que somos grandes, não pelo lado em que somos pequenos.
Uma última observação, porque ela amarra o desenho inteiro: esse poder de price maker tem prazo de validade. Ele vale enquanto ninguém expande cafezais, altos-fornos ou minas de nióbio, ou seja, meses e anos, não décadas. Por isso a medida é temporária, calibrada e para agora. Poder que se deprecia não se poupa; usa-se enquanto vale.
No caso da tarifa de exportação do petróleo está tendo uma briga judicial. Os produtores tentando liminares para não pagar o imposto, vc acha que não aconteceria o mesmo caso o governo aplicasse esse imposto?
Posso argumentar e responder longamente se precisar. Mas de bate pronto te digo que se a régua para descartar políticas públicas fosse "alguém vai entrar com liminar", o Brasil não teria política pública nenhuma. Acho também, de novo, que o incentivo pra litigar muda muito sendo o exportador price maker ou taker.
Litígio é decisão econômica. Empresa não processa por princípio, processa por prejuízo.
Quem judicializa é quem absorve o imposto na margem sem alternativa, que é exatamente a situação das petroleiras: price takers, 12% saindo do próprio bolso, zero compensação. Agora monte a conta do cafeicultor no nosso desenho: ele é price maker, repassa a maior parte do imposto ao comprador americano no contrato seguinte; o resíduo que porventura absorva volta a ele pela compensação financiada pela própria arrecadação; a medida é temporária, com data de morte vinculada à tarifa americana; e ele tem assento na mesa que calibra a alíquota.
Qual é o dano a alegar na petição inicial? Litigar custa dinheiro, azeda a relação com um governo que está lhe devolvendo receita, e o objeto da ação evapora quando a medida expirar. O incentivo simplesmente não fecha.
A judicialização do petróleo não prova que o imposto de exportação gera litígio; prova que imposto absorvido sem compensação gera litígio. Muito do mecanismo pode ser acertado no desenho com os exportadores. E o momento é de união; o governo precisa saber congregar e desenhar com vistas a alinhar incentivos a todos
O senhor acha que caso o Brasil venha anunciar esse imposto, a pressão interna americana pode fazer Trump recuar, evitando inclusive essa taxação pelo lado brasileiro? Estou sendo otimista?
Sim, e você tocou na hipótese que anima a tese inteira: a força deste instrumento está mais na ameaça do que no disparo. O mecanismo é assim: anunciado o imposto, com arcabouço jurídico pronto e prazo definido, a pressão muda de endereço no mesmo instante. Ela deixa de ser do Brasil sobre Washington e passa a ser de americanos sobre Washington: consumidores que sentirão a inflação no bolso, na prateleira do café e do suco, e empresários que verão suas cadeias produtivas ameaçadas. Cada torrefadora, cada siderúrgica que roda com o nosso gusa, liga para o seu congressista, e com eleições de meio de mandato em novembro, congressista americano atende o telefone.
Não é teoria, é o filme que acabamos de assistir duas vezes. Quando as províncias canadenses tiraram o bourbon das prateleiras, as exportações americanas de bebidas ao Canadá caíram 70%, e quem apareceu pedindo trégua foram congressistas americanos escrevendo cartas a Quebec. Quando a China anunciou controles sobre terras raras, Washington sentou à mesa em semanas, antes mesmo de o grosso do efeito se materializar; quem negociou foi a ameaça crível, não o dano consumado.
E há camadas acima dessa. O nióbio é insumo fundamental de indústrias estratégicas americanas, da siderurgia especial ao setor aeroespacial, e os EUA dependem de nós em praticamente cem por cento. A aviação regional americana voa em aeronaves da Embraer e da Bombardier canadense, sem substituto em produção no mundo. São ativos que valem mais como ameaça do que como disparo, e que abrem, inclusive, um caminho natural de coordenação com o Canadá. A própria lista de exceções, ao poupar tudo isso, é meia confissão de que o recuo é possível: Washington isentou onde sabe que a dor apareceria.
Então, respondendo diretamente: pode o imposto nunca chegar a ser cobrado? Pode, e seria o melhor desfecho, porque o objetivo nunca foi arrecadar, é abrir a mesa que doze meses de paciência não abriram. A única condição é que a ameaça seja crível, e ela só é crível se o país estiver visivelmente pronto e disposto a disparar. Anúncio sem preparo é blefe, e blefe, com este interlocutor, sai mais caro que a inação. Seu otimismo, portanto, tem base; ele só precisa vir armado. E essa tem sido a linguagem de Washington. De novo, precisamos falar nesse idioma para sermos ouvidos.
