Política urbana deve ser tão vigorosa

quanto econômica, diz Yang, do Urbem

Para empresário, pandemia trouxe à tona o “fosso enorme” entre ricos

e pobres

 

Por Anaïs Fernandes — De São Paulo

13/07/2020 05h00 ·

 

A crise da covid-19 não deve alterar de forma radical os processos de ordenamento das cidades, o que não significa que mudanças não serão observadas, como nos transportes, na segmentação nos

municípios ou no mercado imobiliário, avalia Philip Yang, fundador do Instituto Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole). 

Em Live do Valor na sexta-feira, ele destacou como a pandemia trouxe à tona o “fosso enorme” entre ricos e pobres. Para ele, o maior fator de risco para a morte por covid-19 não é uma condição biológica, mas social. “E essa condição social é, antes de mais nada, também territorial, porque a população de risco é quem ganha pouco e está em situação de moradia vulnerável”, afirmou.

Por isso, Yang repete seu “mantra”: “A melhor política contra a desigualdade é a política urbana.” Na sua visão, essa é a maneira, de corrigir “grandes flagelos”, como no acesso a bens coletivos (caso de

transporte, habitação e saneamento). “Quando você aplica uma política urbana muito vigorosa, no mesmo nível de força de uma política econômica, você consegue corrigir efeitos nefastos que a desigualdade carrega.”

Com a pandemia, porém, todas as esferas de governo enfrentarão restrição fiscal, o que impõe desafios a programas habitacionais, afirmou Yang, que se disse “muito preocupado com 2022”, ano de

eleição presidencial. “Esse governo federal entrou sem nenhuma ideia do que seria a política habitacional e herdou as políticas de outras administrações. Os recursos estão cada vez mais escassos, os orçamentários, do FGTS etc. Política habitacional demanda modelagem bastante complexa, não se faz em meses”, disse, insistindo na importância de não se repetir os erros do passado.

Questionado sobre como a pandemia pode influenciar o horizonte, Yang disse que as pessoas têm dúvidas a respeito da “sobrevivência” das cidades, em função da necessidade de evitar aglomerações.

Segundo ele, outras pandemias não afetaram de maneira decisiva as formas urbanas. A situação atual, porém, tem particularidades. “Agora, as tecnologias que prevalecem favorecem muito a desaglomeração”, disse Yang.

As cidades devem passar por um realinhamento nos usos da terra e em seus preços, de acordo com Yang. Ele mencionou que o avanço do home office pode gerar queda permanente na demanda por lajes corporativas, o que exigiria do mercado um reequilíbrio entre produtos comerciais e residenciais. Outro exemplo é a aceleração do comércio eletrônico, com potencial de diminuir imensas áreas de varejistas ou shoppings. Se a presença de lojas físicas de grandes redes pode diminuir, por outro lado, “talvez haja um aumento de serviços de alcance mais local, de cunho artesanal”, afirmou Yang.

Na esfera pública, Yang disse que a matriz de transportes deve mudar. “Não sabemos quanto isso é duradouro, mas devemos ver queda no uso de transportes públicos, pelo risco de contaminação e pelo avanço de micro modais, como patinetes e bicicletas, além do advento do carro autônomo.”

 

Outro movimento pode ser a desconcentração de grandes metrópoles para cidades médias e pequenas - e, mesmo nos meios urbanos, segmentações devem mudar. “Podem ser não mais tanto por renda, mas por faixa etária, com jovens indo para o centro e famílias e pessoas de meia idade, para franjas das cidades. Ou por estilo de vida e visão de mundo: pessoas mais progressistas nos centros adensados e pessoas mais conservadoras nas franjas.”

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