Uma ideia atual para salvar o centro de SP e outra do futuro

Em entrevista a EXAME.com, o urbanista que desenvolveu o projeto escolhido pela prefeitura para repovoar o centro de SP explica suas ideias e revela um projeto radical para o futuro

07/04/2013 | 8h50

Amanda Previdelli

 

 

São Paulo – Ele é responsável pelo projeto que promete mudar o centro de São Paulo e, de quebra, ainda tem algumas ideias - bem radicais - para melhorar a cidade como um todo. Philip Yang é fundador do Instituto Urbem, que desenvolveu o projeto apresentado na última semana pela prefeitura e pelo governo estadual para revitalizar e repovoar o centro da cidade. A área central conta hoje com 20% das vagas de emprego, mas apenas 3% dos moradores da capital.

 

O Casa Paulista prevê a construção de 20 mil unidades habitacionais na região do centro expandido. O mais importante, segundo Yang, é promover um “mix” entre comércio, serviços, áreas verdes e residências. O conceito de mistura foi pensado até para as residências: os apartamentos serão distribuídos para famílias com diferentes faixas de renda (desde 755 a 11 mil reais mensais), para dar diversidade ao centro.

 

Yang conversou com EXAME.com para esclarecer detalhes do projeto escolhido pelo governo e, ainda, oferecer uma solução radical - ao menos para quem dirige - para aumentar as calçadas da cidade e as áreas de convivência.

 

EXAME.com – Como o senhor acha que o projeto do Urbem vai revitalizar o centro de São Paulo?
Yang – O exemplo acho que é esse: se você deixa o governo tomar conta das áreas centrais com habitação social, você vai criar um monte de bolsão de pobreza e vai terminar por matar o centro de São Paulo, que precisa urgentemente de vigor econômico, vida etc. Se deixa só para o mercado tomar conta dessa tendência de repovoamento do centro, ele vai construir um predinho com muro na frente, aquela coisa horrível. O Urbem acredita que uma boa cidade se faz de convívio, conseguimos criar uma proposta conceitual de uma nova dinâmica de ocupação do centro.

 

EXAME.com – A construção de milhares de unidades habitacionais não é algo que se passa despercebido. Como esse projeto interage com a história do centro?
Yang – Um dos princípios nossos é de respeito à realidade existente. Na verdade, ele não abrange o centro em si, mas o centro expandido e, sobretudo, zonas de interesse social. Lá você tem que se preocupar com algum patrimônio histórico que seja de muita relevância do ponto de vista da história industrial de São Paulo. Não é tanto assim e, de resto, são zonas absolutamente abandonadas, subutilizadas e em estado avançado de degeneração.

 

EXAME.com – Já tivemos políticos dizendo que gostariam de uma igreja em cada esquina em São Paulo. Outros, um empreendimento em cada esquina. O que o senhor gostaria de ver em cada esquina paulistana?
Yang – Um parque. Um espaço público. Eu acho que o sucesso das cidades, e isso está demonstrado em cidades que a gente gosta de visitar, como Barcelona, é a mistura. Outra coisa que eu queria ter em casa: uma calçada.

 

EXAME.com – Como assim, “uma calçada”?
Yang – Veja só: estava caminhando pela (Avenida) Juscelino Kubitschek com um grupo de amigos e um deles parou para conversar com um colega que encontrou na rua. Aí teve gente reclamando que as "pessoas pararam no meio da rua" e eu fui olhar a calçada, ela media 1,2 metros. Eu medi. E isso na frente de uma mega torre. Que cidade é essa que você mora e não pode encontrar um amigo na rua?

 

EXAME.com – Mas aí você compra uma briga com os carros, quando quer aumentar as calçadas. Como você lida com uma cidade que privilegia o automóvel?
Yang – Eu tenho uma ideia. E é radical e eu ainda vou lutar para tentar convencer as pessoas. Sabe qual é a fórmula para a gente superar isso? É a supressão total dos estacionamentos na rua. Nenhuma carta de direitos humanos  diz que você tem o direito de estacionar. Estacionar é um negócio que você tem que pagar, mesmo. Você tem um carro, pague. Então o que você faz? Você pega todas as zonas azuis, que são mais ou menos 40 mil vagas geridas pela prefeitura. Isso dá cem edifícios com 400 vagas cada um. É absolutamente factível. Desapropria, dá para o setor privado o direito de construção e operação do estacionamento e a prefeitura pega as faixas de estacionamento para fazer calçada e ciclovia. Em quatro anos você muda a paisagem urbana de uma cidade.

 

EXAME.com – Durante a campanha eleitoral ano passado, o agora prefeito Fernando Haddad falava muito sobre a questão urbana e de mobilidade em São Paulo. Para ele, a solução seria criar mais pólos de emprego na periferia. A nova proposta, de criar pólos habitacionais no centro, é oposta. Isso não acaba saturando ainda mais a região central?
Philip Yang – O movimento de repovoamento do centro é um fenômeno que já está ocorrendo. Dando um passo para trás, você perdeu no espaço de talvez uma década algo da ordem de grandeza de 300 mil habitantes no centro e começou a recuperar, mas só recuperou uns 30 mil. Você tem uma capacidade ociosa de infraestrutura já instalada ainda muito grande para preencher antes que haja uma saturação.

 

EXAME.com – O senhor acha que o projeto vai acabar aliviando a lotação do transporte da cidade?
Yang – Sim, o que vai aliviar o problema da mobilidade é um equilíbrio entre trabalho e moradia. Você pega a Av. Radial Leste, por exemplo. Ela tem seis vias, tem um canteiro central gigantesco, tem um corredor de ônibus super bem estruturado e, no entanto, quando você olha, não vê cidade. Aí você chega para um burocrata da prefeitura e pergunta sobre isso. Ele responde: “ah, se deixar construir aqui, vai gerar muito trânsito”. Ora, você tem muito trânsito porque o cara que trabalha aqui mora lá no fim do mundo. A lógica de aliviamento da mobilidade é a criação de novas centralidades.

 

EXAME.com – Por que os empreendimentos imobiliários não vão para essas regiões, então?
Yang – Você tem um descompasso gigantesco entre desenvolvimento econômico e as leis de zoneamento. O primeiro zoneamento é da década de 1960, depois teve na de 1970 e o último agora em 2002, 2004. Imagina você mudar a dinâmica espacial de um território de 40 em 40 anos. É uma coisa absurda quando a economia avança desse jeito.

 

EXAME.com – Qual a opinião do senhor a respeito de iniciativas para desafogar o trânsito como pedágio urbano e mudanças no rodízio (aumento das horas ou dos dias que os carros não poderão circular)?
Yang – O pedágio urbano restringe o direito de ir e vir. Ele cobra uma coisa que eu não vejo como uma coisa legítima. Agora, eu não tenho restrição a rodízio. O negócio é que é uma coisa horizontal pra todo mundo. E um horário e dia fixos, você se programa, isso é legal. É um sacrifício que você faz em prol do coletivo, acho que todo mundo tem de fazer e é uma coisa bonita. Eu sou muito adepto do transporte público e de táxis, acho que ninguém deveria ter carro, mas já que tem, há um custo.

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